Meu intuito.


"Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso

(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo."
Caetano Veloso



segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Não é a primeira vez que morro na praia. 
Com menos ou mais braçadas, já morri antes. 
Na praia. 
Diz Caymmi que é doce morrer no mar. 
Acho também. 
Morrer tentando.
Tentar, mesmo morrendo.
Abraçarei o mar quantas vezes mais for preciso. Na maré cheia ou na maré rasa - como é o coração de tantos.
Morrerei na praia, abraçada ao mar, enquanto meus olhos molhados de sal avistarem horizonte.
Já viu como, de dentro do mar, o horizonte parece maior?


Célia Aguiar
2018, outubro. 

domingo, 28 de outubro de 2018

Eu quero fazer samba e poesia

Olhar a rua

E dizer aos meus companheiros

Que são eles a minha guia



Dizer o que o peito não quer calar, mesmo quando os olhos querem

Que a lágrima do coração é mais difícil de enxugar



Quero te contar, te acessar, te levar

Quero não me caber, ser outro ser, conhecer



O mundo está aí, há muito.

Eu estou aqui, pra nada.

Só quero poder dizer, cantar, sambar, benzer, chover, amar.



Vem comigo.

Pra lugar algum.

Eu juro que lá é bom.



Célia Aguiar
2018, outubro.



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O mendigo vinha sorrindo. Um sorriso sem dentes bem bonito.
Cruzei com ele na calçada.
Eu triste, boca fechada, olho caído.
O mendigo teve pena de mim.

sábado, 14 de outubro de 2017

O touch do celular reconhecia sempre o dedo, mesmo que torto, rápido demais ou até molhado. Mas aquele dia era molhado de lágrima. Não reconheceu. Era como se falasse “quê isso, menina, essa aí não é você, não”. É, sim, touch do celular, essa sou eu versão fratura exposta.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ancestralidade.
Oralidade.
Identidade.
Muitos me perguntam por que eu gosto tanto de samba.
Pois eu digo que é porque é legítimo.
Porque é autêntico.
Genuíno.
Porque é nosso.

Mas para ser nosso, muitos (negros) já apanharam. Morreram (os negros).
O samba, sobretudo e a despeito de tudo, resistiu.
Samba sempre foi canto de lamento, trabalho, tristeza e alegria. Assim mesmo, tudo junto.
É canto de conexão. De banzo. De amor.

Batucado na lata de graxa. Na caixa de fósforo. Na faca que bate no prato.
O samba que faz parte da história das cidades. Que faz suas curvas pelas ruas da cidade. Aquelas que ninguém vê.

O samba que é crônica, que é instrumento para falar da gente. Da nossa gente.
Samba que nos conta sobre os dias que se foram e carrega a esperança - a esperança resistente dos nossos ancestrais africanos - para os que hão de vir.

Por isso, por tudo isso, eu e você temos a responsabilidade de aprender e cultuar o samba, dar pulso ao samba.
Samba de Roda.  
De Terreiro.
O Samba Rural, dos quilombolos*
Dos Cordões.                                                                                                              
Samba de Umbigada.
O do Partido-Alto.
Samba-raiado, sincopado, de breque.
Jongo, o avô do samba.

Um salve aos griôs**, que nos ensinam.
Um salve à Velha Guarda, que é negra, forte e destemida.
Um salve aos nossos baluartes. Todos.
E salve – por favor, salvem – o samba: o maior baluarte da nossa cultura.
Oxalá!


*Quilombo:
Toda comunidade negra rural que agrupe descendentes de escravos, vivendo de cultura de subsistência e onde as manifestações culturais têm forte vínculo com o passado.

**Griôs:
A palavra griô tem origem na tradição oral africana, utilizada para designar mestres portadores de saberes e fazeres da cultura, eAncestralidade.
Oralidade.
Identidade.
Muitos me perguntam por que eu gosto tanto de samba.
Pois eu digo que é porque é legítimo.
Porque é autêntico.
Genuíno.
Porque é nosso.

Mas para ser nosso, muitos (negros) já apanharam. Morreram (os negros).
O samba, sobretudo e a despeito de tudo, resistiu.
Samba sempre foi canto de lamento, trabalho, tristeza e alegria. Assim mesmo, tudo junto.
É canto de conexão. De banzo. De amor.

Batucado na lata de graxa. Na caixa de fósforo. Na faca que bate no prato.
O samba que faz parte da história das cidades. Que faz suas curvas pelas ruas da cidade. Aquelas que ninguém vê.

O samba que é crônica, que é instrumento para falar da gente. Da nossa gente.
Samba que nos conta sobre os dias que se foram e carrega a esperança - a esperança resistente dos nossos ancestrais africanos - para os que hão de vir.

Por isso, por tudo isso, eu e você temos a responsabilidade de aprender e cultuar o samba, dar pulso ao samba.
Samba de Roda.  
De Terreiro.
O Samba Rural, dos quilombolos
Dos Cordões.                                                                                                              
Samba de Umbigada.
O do Partido-Alto.
Samba-raiado, sincopado, de breque.
Jongo, o avô do samba.

Um salve aos griôs, que nos ensinam.
Um salve à Velha Guarda, que é negra, forte e destemida.
Um salve aos nossos baluartes. Todos.
E salve – por favor, salvem – o samba: o maior baluarte da nossa cultura.
Oxalá!sses transmitidos oralmente. Os griôs são aqueles que há séculos preservam e transmitem as histórias.
A palavra griô ao ser incorporada à cultura brasileira teve seu sentido ampliado, sendo agregadas ao oficio do griô outras ações, como cantoria, dramaturgia, danças, além da contação de histórias; mas sem perder a sua referencialidade quanto à valorização de transmissão de saberes por meio da tradição oral.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

E de repente, começo a sentir uma saudade doída. De tudo. Da minha infância, dos meus sonhos, das imaginações acerca do que seria eu hoje. Da leveza, da brisa no meu rosto, apertando os olhos só para ver pontinhos de luz. Não tem mais nada disso. Tudo tão duro. Tudo tão realidade. Acorda, menina! Olha sua idade. Não dá mais pra imaginar, tem que fazer, tem que produzir, tem que ser.  Não qualquer coisa, tem que ser boa. Tem que ser destaque. Tem que ganhar bem. Tem que ganhar elogios, prêmios, conta bancária gorducha. O que sua família vai pensar de você? E seus amigos? Olha lá, todos com apartamento, carro, férias no exterior. E você aí, procurando sentido nas coisas. Esquece! Anda. Não olha pra trás. Não tem mais nada daquilo. É assim que é agora. E se for chorar, chora baixo. Escondido. Que coisa de gente fracassada chorar. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

É uma mistura. Um vai-e-vem. Uma coisa muito louca.
- "Tô fazendo coisa de menos, tô no mundo perdendo a viagem, preciso me engajar, preciso agir, preciso colocar a mão na massa, estudar mais, escrever, dar voz a isso aqui dentro, preciso ouvir o chamado - não, não tem nada de místico-espiritual, é um chamado puramente racional - e sair do meu microuniverso, conhecer outras pessoas, outros objetivos, descruzar os braços do comodismo. Há tantas causas maiores..."
- "Preciso terminar aquele freela, comprar shampoo e lavar a louça. Ai que vontade de ficar no sofá. Preciso atualizar meu currículo, acho que vou ter que mudar, as contas estão apertando. Queria dormir mais 14 horinhas só. Tenho casamento, aniversário, chá de bebê e corrida no final de semana, preciso me programar - e tentar dar conta. Tenho três livros para terminar de ler. Já estou com 30 anos, será que já não era hora de casar e ter filho? Precisava resolver aquele problema na Vivo. Preciso conhecer a casa nova da Fê. Faz tempo que não vejo minha tia. Preciso consertar o controle remoto da TV..."
E enquanto eu piro, paraliso. Não faço nada: não salvo o mundo nem lavo a louça.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Mais um.

É que quando chega ao fim e a gente chora e lamenta e o peito aperta, a gente, na verdade, faz isso por todas as outras vezes que também não deram certo. A decepção é cumulativa.

domingo, 1 de setembro de 2013

É desconcertante rever o grande amor.

Juraram amor eterno. Faziam-se parte um do outro todos os santos dias, por anos.
Fingiram que não se viram. Coisa estranha essa de serem dois estranhos agora.